Lusco-fusco, em dialógo com Clarice

Atualizado: Abr 19

Caminhava incessante, duas, três milhas, os pés queimavam, suas pernas curtas o tornavam ainda

mais perto da calçada flamejante, sua barriga comprida destoada pelo nanismo do pedigree. Não havia vontade naquele ser, apenas era abruptamente guiado. Não havia singeleza, doçura ou candura na mulher, o pequeno ser chamejava insólito à vontade alheia.


Por um instante, parou sob uma roseira esquelética, quase sombra. Uma brisa suave perambulante invadira suas longas orelhas vermelhas, salvou-se por instantes do sol abrasador. Aquele breve frescor o atormentara ainda mais, lembrando sedento do cintilar daquele riacho deixado outrora. A língua não pôde mais se deter na boca.



Um punhado de estranhos sussurravam tolices a espera do ônibus, ouvia-se palavras sem intenção, frases vazias de quem tinha boa educação.




Outro puxão firme e seco tirava o animal daquele pequeno e insípido devaneio, colocando o pequeno ser a trotar devagar e sempre.


O lusco-fusco invade sua íris, cintilando como fogo, era uma miragem sob o calor do deserto? Se não fosse as pedras do calçamento que cortavam seus pés desnudos até poderia ser. O calor escaldante tornava sua limitava visão uma quase imagem, a paisagem ruidosamente respirava. Sons frenéticos invadiam seus ouvidos:


- Irc... irc... irc... – um minuto de pausa.


Podia-se perceber sob os raios abrasadores das 14 horas, chamas esvoaçantes sobre a pele alva do rosto angelical, só não era imaculado porque os pontinhos escarlates marcavam reiteradamente os seios de sua face, os olhos pareciam duas janelas enormes e curiosas sob o cabelo ruivo, ali, sentada na escada e inerte uma menina. As linhas retas da casa emolduravam a paisagem. Saltava ao coração do animal algo familiar, não sabia ao certo, mas aquela criança lhe despertava interesse. De novo a visão era interrompida:


- Irc... irc... irc... – dois minutos se passava.


Os olhares entrecruzavam e se identificavam, um momento eternizava. Aquela quase vida sem vontade nem direção, contemplava a paisagem: uma menina vibrante, estática a vislumbrá-lo, parecia integrada a fachada modesta do sobrado. Ela sentada de frente a porta dos entrantes, a fitar profundamente, como quem soubesse tudo sobre o pequeno animal de olhar melancólico.


Mais um puxão seco e firme transportava o Basset rubro em si. Daquela criança apenas sons dissonantes:


- Irc... irc... irc... – agora três minutos avante e o pequeno som já se esvaía em adeus.


Naqueles eternos minutos parecia ter sentido algo que o assemelhava, sentia algo de irmandade. Não havia palavras. Não havia cumplicidade, talvez por um instante uma troca de olhares profundamente contemplativos e pequenos afagos. Havia destaque na paisagem: o branco e o negro, a luz e a sombra; e na lembrança, permaneciam o alvo e o incandescente. A dicotomia do acaso.


O vazio se instalava ao virar a esquina. Na memória do cão e da criança a paisagem ainda sobejava: o cão ardia, a mulher infernizava, a menina encandecia insólita e em soluços restava.


Este conto é um diálogo com Clarice Lispector. Durante o curso de pós-graduação "Texto Criativo: leitura e escrita" que faço na PUCMINAS, as professoras Rita e Márcia nos provocou a escrever um texto a partir do conto "Tentação" de Clarice Lispector, daí nasceu "Lusco-fusco, um diálogo com Clarice".



Clarice Lispector (1920-1977) foi um dos maiores nomes da literatura brasileira do Século XX. Este ano de 2020 é o centenário de nascimento desta grande escritora brasileira. O conto "Tentação" foi publicado em uma coleção de contos para crianças chamada "O mistério do coelho pensante e outros contos", disponível em ebook pela Amazon. Embora seja uma publicação para crianças, estes contos é uma excelente leitura para todas as idades.


Nestes contos Clarice estabelece uma relação quase maternal com seus leitores, dialogando com este leitor modelo durante as narrativas. Parafraseando Umberto Eco, esta conversa que o autor modelo estabelece com seu leitor-modelo, durante a narrativa, é um estratégia criativa que prende o interesse do leitor empírico, é uma relação quase gravitacional.


Deixo aqui minha recomendação para toda família: o livro "O mistério do coelho pensante e outros contos" é um excelente e memorável começo para formar hábito leitor e conhecer Clarice Lispector.


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